Mundo em duas rodas

Por Mariana Mesquita, da Go Outside online

Depois de 3 anos de viagem, 40 mil quilômetros pedalados, 46 países visitados, centenas de cidades, milhares de pessoas, 30 quilos de bagagem, diversas correntes e pastilhas de freio trocadas e noites mal dormidas,Arthur Simões está de volta de sua viagem pelo mundo de bicicleta.

Aos 24 anos, ele concluiu a faculdade de direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e decidiu realizar seu sonho de conhecer o mundo de bike. Com determinação, foi atrás de seu sonho e iniciou o projeto Pedal na Estrada. Nele, publicou um diário de viagem.
O Mundo ao lado: a volta ao mundo de bicicleta é um livro fruto desse desafio. A obra será lançada no dia 30 de novembro. O autor e fotógrafo relata sua trip, reunindo suas melhores histórias. O livro é uma grande inspiração para aventureiros e para qualquer um que queira entender melhor  o mundo pelo olhar do viajante — sempre sob duas rodas.
Em entrevista para a Go Outside online, Arthur contou como foi planejar a viagem, as dificuldades e aprendizados, além de revelar dicas para quem quer seguir em uma jornada semelhante.

GO OUTSIDE: Quando surgiu a ideia de largar tudo e se lançar neste projeto?

ARTHUR SIMÕES: A decisão de abandonar a área do direito veio antes da viagem. Durante a faculdade percebi que não conseguia me ver aos 40 anos lidando com processos e usando termos em latim. Assim terminei o curso e decidi não trabalhar com direito. O embrião da viagem surgiu durante a faculdade, numa época em que comecei a fazer algumas viagens de bicicleta, como pela Estrada Real, em Minas Gerais, e pelo litoral paulista. Também soube de um alemão que havia feito uma volta ao mundo sobre uma bicicleta. Tinha cerca de 20 anos, e aquela história pareceu absurda para mim. Na medida que continuei pedalando e viajando de bicicleta, percebi que uma viagem tão longa quanto uma volta ao mundo era possível, mas necessitava de um planejamento maior. Teria que pensar em quanto tempo levaria e quanto gastaria numa viagem dessas, além de como poderia tirar vistos, levar dinheiro, atravessar oceanos, tomar vacinas… Enfim, todo o planejamento que envolve uma longa viagem.

Como foi a preparação  física e o planejamento geral da viagem?
Pedalo desde criança e, durante a faculdade, além de realizar curtas viagens sobre duas rodas, treinava com o pelotão da USP (Universidade de São Paulo). Treinar com bicicletas de estrada me ajudou a melhorar a técnica de pedalada, o que foi essencial durante a execução da volta ao mundo. Assim, a preparação física não foi um obstáculo na viagem. No aspecto psicológico, tão importante quanto o físico numa viagem dessas, yoga e meditação me ajudaram bastante. Já o planejamento técnico, envolvendo toda a logística da viagem, foi o que deu mais trabalho. Fiquei cerca de 10 meses desenvolvendo o Pedal na Estrada, que por ser também um projeto social demandava mais que a definição do roteiro, tempo e planos alternativos de viagem, mas também precisava de patrocinadores e diversas parcerias para sair do papel.

Qual a maior dificuldade nestes anos na estrada?

Foi lidar com o inesperado, pois apesar de todo o planejamento o mundo real era bem diferente do que eu via em guias, revistas e mapas. Dentre os acontecimentos que eu não esperava quando saí do Brasil, está o problema com a comida. Como nunca havia tido problemas aqui, achava que me manteria assim durante a viagem, mas, pelas condições da viagem que me forçavam a parar geralmente em pequenas cidades e vilarejos pelo caminho, nem sempre eu podia escolher o que comia, especialmente quando me hospedava na casa da população local. Assim tive alguns perrengues alimentares, todos superáveis, mas que faziam o ritmo da viagem ficar mais lento. Outra dificuldade era lidar com a solidão. Mesmo sendo uma pessoa independente, após 3 anos viajando sozinho esse fator pesa. Fora essas dificuldades, havia problemas mais pontuais, como tentativas de roubo pelo caminho, ser atropelado na Turquia, sofrer um acidente em Dubai, ter a bicicleta quebrada em Mianmar, mas imprevistos como estes, apesar do susto que geravam, faziam parte do curso normal de uma viagem.

O que você mais gostou e aprendeu com essa experiência?
Creio que o maior aprendizado foi o de conseguir derrubar as fronteiras e os estereótipos entre os povos. Estamos acostumados a classificar e a rotular tudo o que conhecemos. Por exemplo: o Paquistão é um país perigoso e o povo muçulmano é beligerante por natureza, ou o povo francês é mal educado com os estrangeiros. Durante a viagem percebi que não podemos generalizar um país todo e nem imprimir um rótulo nele, já que cada um é formado por pessoas, e estas agem de forma semelhante na maioria das vezes, como um reflexo de nós mesmos. Assim, se ficarmos abertos ao novo e deixarmos de lado nossa tendência de julgar e classificar o outro, será possível encontrar um país e um povo incrível no Paquistão, assim como no Irã e em outro lugares. Mas o oposto também é verdade.

Que dicas você dá para quem quer seguir este caminho?
Acho que para a pessoa fazer uma viagem como esta ela tem que ser alimentada por uma forte motivação, que não a deixará desistir no meio do caminho, não importa que obstáculos ela enfrente. O segredo é saber lidar com problemas e saber solucioná-los. Fora isso, é importante a pessoa planejar bem sua viagem antes de sair, calculando gastos, tempo e se preparando para possíveis imprevistos ao longo do caminho.

Fonte: GOOUTSIDE.uol.com.br, 09/11/2011

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